O começo de tudo

Um pouco de história não faz mal a ninguém, pelo contrário, conhecer o passado é fundamental para entender o presente e se preparar para o futuro. Antes do vinho, precisamos saber um pouco sobre a videira e a uva. Tudo indica que o homem já colhia uvas para o seu consumo há 02 milhões de anos. Os indícios mais antigos sobre o cultivo de videiras datam de 8.000 a.C. Ou seja, foi nessa época que o homem deixou de ser um simples coletor de uvas e passou a ser agricultor. De agricultor para enófilo deve ter sido um pulo. Graças a Deus.

A questão botânica também é muito importante nessa história. Assim como muitos outros vegetais, a videira selvagem possui plantas masculinas e femininas distintas. É muito raro que uma mesma planta apresente ambos os sexos (flores). Portanto, na antiguidade as plantas femininas precisavam ter plantas masculinas por perto para fornecer o pólen e assim, frutificar. O homem “pré-enófilo” (pré-histórico) não sabia nada disso. Quando ele começou a cultivar a videira, priorizou as plantas que davam frutos (femininas e hermafroditas) em detrimento das estéreis (masculinas). Obviamente, as plantas femininas pararam de frutificar e não demorou muito para também serem descartadas. Assim sendo, podemos dizer que a videira cultivada distingue-se da videira selvagem por ser majoritariamente hermafrodita. Interessante, não?

Imaginem confrades como foi espetacular essa época. O homem deixando de ser nômade, se estabelecendo na terra, cultivando seu sustento. Ao mesmo tempo surgiam os primeiros utensílios de cobre e de cerâmica; o uso da fala e a necessidade de desenvolver uma linguagem para se entenderem era eminente; nesse contexto, a escrita foi uma conseqüência natural dos fatos. Por fim, esses assentamentos seriam os embriões do que um dia viríamos a chamar de “vilas” e “cidades”.

Lá pelos 3.000 a.C, as grandes civilizações (sumérios, persas, fenícios, egípcios e gregos) já tinham adotado o vinho como sua bebida sacramental. O culto e o respeito à videira eram tão significativos que podemos encontrar manifestações desse tipo em todas as artes e ornamentos. O famoso compêndio de taboas de argila, “A Epopéia de Gilgamesh” (Sumérios, 2.800 a.C.), considerado a narrativa mais antiga da humanidade relata na décima tábua a produção (e importância) do vinho. Os persas, na lenda de Jamshid, apresentam uma interessante versão sobre a origem do vinho (recomendo). O livro do Gênesis, no seu nono capítulo, conta como Noé se transformou em lavrador e plantou um vinhedo após salvar os animais do dilúvio.

Mas foram os egípcios, os gregos e, posteriormente, os romanos que aprimoraram as técnicas de produção e transformaram o vinho numa bebida universal com conotações religiosas, medicinais e gastronômicas. Os egípcios foram os primeiros a registrar em textos e pinturas as várias etapas da produção de vinhos. E mais, eles possuíam senso crítico apurado, classificando suas uvas e vinhos conforme a qualidade. Nessa época, o vinho era estocado em grandes vasos de argila. Em 1922, o famoso egiptólogo inglês, Howard Carter, descobriu a tumba do rei Tutancâmon (falecido em 1352 a.C.). Para a surpresa de todos, foram encontradas 36 ânforas de vinhos, sendo que, 26 delas possuíam rótulo! Várias eram safradas e informavam o nome do chefe vinhateiro (enólogo dos dias de hoje). Duas ânforas apresentavam a indicação de “muito boa qualidade”. Sem dúvida, tudo isso é surpreendente para a época.

O império grego talvez tenha sido o primeiro a adotar o vinho e o azeite como base da sua cultura gastronômica. A dualidade do império (metade terra, metade mar) fez com que sua expansão fosse marítima. Os gregos aprenderam com os fenícios a navegar pelo Mediterrâneo e consolidaram sua hegemonia com a fundação de várias províncias. Eles “colonizaram” a Sicilia e ali fundaram a cidade de Sicarusa; no calcanhar da bota fundaram Tarento; no sul da Gália (hoje, França) fundaram Massalia (Marselha); além de outras tantas colônias.

A paixão dos gregos pelo vinho era tanta que todos os grandes escritores e filósofos documentaram sua importância: Tucídides, Homero, Heródoto, Platão, Hipócrates e Sócrates. Este último, por sinal, escreveu um dos mais lindos elogios ao vinho: “O vinho abranda e equilibra o espírito e acalma as preocupações da mente (…) faz reviver nossas alegrias e é o combustível para a chama da vida que se apaga. Se bebermos moderadamente, com pequenos goles de cada vez, o vinho goteja em nossos pulmões como o mais doce orvalho da madrugada. (…) Assim, o vinho não violenta o nosso raciocínio, mas prazerosamente nos proporciona uma agradável jovialidade.”.

Os romanos, por sua vez, já conheciam o vinho muito antes de se tornarem um império. Desde a época dos etruscos, eles cultivavam videiras, produziam vinho e até comercializavam com outros povos. Um dos motivos do sucesso da civilização romana era a capacidade que eles tinham de absorver o conhecimento dos povos conquistados. Aprenderam com os gregos a selecionar as melhores castas e utilizar novas técnicas de vinificação, com os cartagineses aprimoraram o cultivo da videira e, descobriram com os gauleses que o uso de barricas de madeira era mais vantajoso que as incômodas e frágeis ânforas de barro. Todo o império romano consumia vinho. Existiam vários níveis de qualidade, dependendo do status social do consumidor. O vinho fazia parte até da ração diária dos legionários; no governo de Cláudio, durante a campanha do Egito, cada soldado tinha direito a 02 porções de ½ litro de vinho por dia.

Foi nessa época que surgiu a noção de “terroir” e “denominação de origem”. Os melhores vinhos vinham das regiões ao sul de Roma. Nomes como Falernum, Albanum e Sorrentium eram sinônimos de vinhos de muita qualidade. Algumas variedades de uvas dessa época sobreviveram até os dias atuais e ainda produzem bons vinhos; os melhores exemplos são: Greco di Tufo, Fiano di Avelino, Aglianico, Coda di Volpe e Piedirosso.

Essa enorme demanda por vinho fez com que Roma incentivasse o plantio e cultivo da videira por todo o império. Inúmeras regiões produtoras existem até hoje: Jerez, Rioja, Terragona, Languedoc, Bordeaux, Borgonha, Loire, Rhône e Mosel. Além disso, era uma excelente forma de fixar o homem à terra, mantendo as tradições e a cultura romana. No auge do seu império, eles comercializavam vinhos provenientes de todas as suas províncias.

Portanto confrades, não restam dúvidas de que a história do vinho está intimamente relacionada à história da humanidade. E, cá para nós, não poderíamos estar em melhor companhia. Abraço a todos.

Bons Goles a todos.



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